Uma das bandeiras da AMA BIGORRILHO é a utilização do nome oficial de nosso bairro. Também somos contra o “colonialismo cultural”, ou seja, a subserviência e idolatria que alguns têm para com a cultura alheia, somada a uma injustificável vergonha das coisas de nosso país.
Não se trata de xenofobia, afinal a grande maioria que ajudou a transformar Curitiba de vila a metrópole, eram imigrantes, inclusive nós.
Já escrevemos vários artigos justificando o porquê dessa posição muitas vezes intransigente. Neste artigo, voltamos a comentar o assunto. Por trás de uma aparente implicância sem justificativa, está um motivo muito importante: se não temos orgulho de nosso país, se nossa auto-estima como brasileiros está em baixa, é porque nossas atitudes são de desprezo para com nossas coisas, nossa cultura e nossa história. E isso começa pelo bairro que moramos.
Em agosto de 2011 o Primeiro Ministro Australiano Kevin Rudd, impactou o mundo com um discurso que tinha por objetivo “dar um recado” aos imigrantes. Os mesmos estavam revoltados com a contra-espionagem australiana, que passou a monitorar mesquitas no sentido de precaver-se de eventuais ações de terroristas.
Desse discurso destacamos dois parágrafos, onde Kevin Rudd disse:
Falamos principalmente o inglês, não árabe, espanhol, libanês, chinês, japonês, russo ou qualquer outro idioma. Então, se você desejar se tornar parte de nossa sociedade aprenda o nosso idioma!
E finalizou seu discurso assim:
Este é nosso país, nossa terra, e nosso estilo de vida e nós lhe permitiremos toda oportunidade para desfrutar tudo isso. Mas caso você prefira reclamar, lamentar e se queixar sobre nossa Bandeira, nosso penhor, nossas convicções cristãs ou nosso modo de vida, eu recomendo fortemente que você tire proveito de outra grande liberdade do australiano: O DIREITO DE IR EMBORA.
Se então você não está contente aqui PARTA. Não o forçamos a vir aqui. Você é que pediu para estar aqui. Assim aceite o país que TE aceitou.
Outra citação que merece ser lembrada é a de John F. Kennedy: Não pergunte o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo teu país.
Essas citações que pautamos servem para nos levar à reflexão. Não queremos aqui despertar o fanatismo patriótico. Queremos mostrar que os países de primeiro mundo são assim considerados porque VALORIZAM o que é seu, e tem ORGULHO do que são.
E o que nós fazemos? Debochamos de nós mesmos. Pirateamos nomes estrangeiros. Homenageamos cidades e regiões que não nos pertencem, dando nome a edifícios e logradouros, como se isso fosse nos transformar, como mágica, num país de primeiro mundo. Ao contrário. Isso vai mostrar a nossa ignorância sobre nós mesmos, sobre nossa história e nossa cultura.
Exemplo disso é o tal SoHo Batel, que tem a pretensão de nominar uma região fronteiriça do Batel com o Bigorrilho, nas proximidades da Praça Espanha. Não sabemos a origem dessa idéia maluca, mas com certeza foi de alguém que esteve em Nova Iorque e ficou deslumbrado com o SoHo de lá, embora haja um bairro em Londres com o mesmo nome.
Antes de piratear a denominação seria prudente pesquisar para saber que SoHo é um bairro de Lower Manhattan , Nova Iorque , notável por ser o local de muitos artistas, lofts e galerias de arte, e também, mais recentemente, para a grande variedade de lojas e estabelecimentos comerciais que vão desde boutiques da moda até lojas de luxo nacional e cadeias de lojas internacionais. A história da região é um exemplo arquetípico de regeneração do centro da cidade abrangendo o desenvolvimento sócio-econômico, cultural, político e arquitetônico. A maior parte do SoHo está incluído no SoHo-Cast Iron Historic District, o qual foi demarcado pela comissão da cidade de Nova Iorque denominada Landmarks Preservation que atuou de 1973 até 2010. A área foi listada na Registro Nacional de Lugares Históricos e declarado Patrimônio Histórico Nacional em 1978. É composto por 26 blocos e cerca de 500 edifícios, muitos deles incorporando ferro fundido aos elementos arquitetônicos. Agora vem a parte mais importante: O nome SoHo refere-se à área localizada ao “Sul (south) de Houston Street”. Esta convenção de nomes tornou-se um modelo para os nomes dos bairros novos e emergentes em Nova York, como por exemplo NoHo , pois fica "ao Norte de Houston Street", TriBeCa ("TRIangle BElow CAnal Street" traduzindo, Triângulo abaixo Canal Street), Nolita ("Norte de Little Italy"), NoMad (Norte do Madison Square"), e DUMBO ("Distrito sob o viaduto da ponte Manhattan). Alguém pode lembrar que em Buenos Aires há o bairro Palermo, e uma pequena parte dele recebeu o apelido de Palermo SoHo. Lá também há uma área chamada de Palermo Hollywood. Isso não explica nem justifica de querer impor por aqui o tal Batel Soho.
Se quisessem adotar a idéia de simplificar o nome da região, adotando as primeiras sílabas como fizeram em Nova Iorque, até seria bacana. Eu disse copiar a idéia, não a designação, e utilizando as designações locais. Como aqui não se faz referencia a locais da cidade utilizando-se os pontos cardeais, (ao Norte do batel, por exemplo) poder-se-ia adaptar a idéia para o nosso uso comum. Por exemplo: ReBiBa seria a forma reduzida de Região entre o Bigorrilho e o Batel. A criatividade e imaginação fica livre para outras opções. Mas SoHo, é intolerável.
Fico a imaginar qual será o sentimento do futuro morador de certo edifício em construção, apressadamente batizado de Jardins SoHo, que localiza-se no Bigorrilho, não no Batel e tampouco ao Sul da Houston Street.
Ah, em tempo: Construtoras, parem com essa bobagem de chamar nosso bairro de Champagnat. Tenham a decência de olhar o mapa da cidade e as placas com os nomes de nossas ruas. Lá está escrito: Bigorrilho. Ou será que teremos que adotar o discurso do Primeiro Ministro australiano?
Batel SoHo e Champagnat. Coisas estranhas a nossa história e nossa identidade. Quem vai continuar pagando esse mico?
Paulo Luiz Haag
Contabilista, Economista, Pós graduado em Administração Financeira e Engenharia Econômica
Diretor Tesoureiro da AMA Bigorrilho.